Meu Blog


Quem não se comunica, se trumbica!

- Abelardo Barbosa - O Chacrinha

Muito além dos dentes


equipe luiz gustavo

Depois de alguns anos trabalhando individualmente, consegui perceber que seria impossível atender todas as necessidades dos meus pacientes, oferecendo-lhes apenas as especialidades nas quais resolvi concentrar meus estudos e minha dedicação, no caso, a implantodontia e a estética dental.

Assim, com muito cuidado procurei formar uma equipe que trabalhasse dentro de uma filosofia integrada. O grande desafio das equipes que trabalham em saúde é conseguir de fato realizar uma integração de especialidades e atuar de forma interdisciplinar, ou seja, todas as especialidades colaborando mutuamente em busca de um mesmo resultado final.

A cada dia me surpreendo com a afinidade e a sinergia que temos conseguido alcançar dentro da nossa equipe e me deixa extremamente feliz saber que todos nós acreditamos que a Odontologia envolve mais do que simplesmente recuperar ou preservar a saúde dos dentes. Para a nossa equipe, a verdadeira maravilha e beleza da Odontologia é que tudo o que fazemos afeta de forma global nossos pacientes.

Dessa forma quando começamos a trabalhar em um caso, tentamos olhar além dos dentes e do sorriso para “ver” a verdadeira essência de cada pessoa.

O nosso trabalho não é somente sobre o sorriso mas sobre tudo aquilo que pode ser afetado pelo sorriso. Nos sentimos privilegiados em ter a oportunidade de aprimorar “o todo” em nosso trabalho.

Um novo de alma velha


Ainda ontem, recebi uma carta de um velho amigo velho pra quem também sempre escrevo as minhas. Sim. Ainda uso cartas para me comunicar. Não haveria outra forma com este amigo ancião que rejeita a objetividade moderna e hipócrita do email e detesta, assim como eu, a chatice do debate das idéias pelo fio do telefone. Em pleno século XXI, sinto-me pertencer ao XVIII.

Segundo outro amigo bem mais moço, o notável Dr. Daniel Siqueira, sou dado às coisas velhas (no sentido de antigas, de idade avançada), especialmente os amigos. Por suas contas, a média de idade dos meus amigos mais chegados bate por baixo os sessenta anos. Sempre foi o mestre do exagero, o tal Dr. Daniel Siqueira.

Minha Tia Leopoldina, uma segunda mãe e profunda conhecedora dos recônditos da minha alma, afirma categoricamente que esta já está pra mais de cem anos. Daí, segundo ela, o magnetismo, a atração pelas cousas que atravessam os séculos. Como a palavra cousas, já caída em desuso, mas usada por ela frequentemente em seu vocabulário cotidiano e antigo.

Mas voltemos às cartas.

Pobre das gerações futuras que não receberão uma carta escrita a punho. Que jamais sentirão o leve prazer de, inesperadamente, encontrar uma carta na caixa de correio. Que não experimentarão a mistura de curiosidade e palpitação cardíaca que antecedem a defloração do envelope. Pra quem gosta disso.

Sim! Abrir o envelope é quase como despir a namoradinha antes do desvirginamento. Pra quem gosta disso, é óbvio.

O email assassinou a carta. O Twiter, o MSN, o Facebook são os facínoras do papel de carta. Pobre das minhas filhas que não colecionarão papéis de carta.

Mas há ainda os pobres diabos como eu que resistem. Como meu amigo ancião que não aderiu à internet. Como um Padre Florêncio. Não! O Padre Florêncio só manda e-mails hoje em dia. Mas mandou muitas cartas. Tenho algumas. Como um Roberto de Patrício que não só manda cartas como as perfuma com Azarro. Como um Seu João Claudino, que manda cartas lindas sempre com um papel timbrado próprio e datilografadas. Cartas memoráveis pois tem uma equipe só para escrevê-las e lhes entregá-las no ponto de assinar. Como um José Ribamar Garcia, advogado piauiense brilhante que mora no Rio e que ainda escreve cartas. Como um João Cláudio Moreno que me envia cartas nos meus aniversários ou simplesmente, quando precisa confessar algo. Letras que chegam num papel de carta pessoal, timbrado com seu monograma preto em baixo relevo, JCM. Papel cartão de gramatura superior que traz consigo mais respeito que o operário papel ofício. E ainda, de modo mais peculiar, não as envia pelos Correios, mas pelo Ronaldo, seu chofer com porte de soldado de cavalaria. Acho que foi dele que imitei o meu papel de carta. Timbrado com minhas iniciais, mas que não são em baixo relevo e nem se entrelaçam como as dele. Coisa de artista. Pena que não tenho chofer. Se não, o imitava também nisso.

Meses atrás, minha mulher, minhas filhas, a babá e meu cunhado viajaram por três semanas completas. Mandei uma carta para cada qual. Cinco cartas. Não, seis! Mandei também para a Tia Pepêta, que os hospedou em Salvador.

Pois vejam que me ligaram tomados de uma surpresa esfuziante. Receberam uma carta cada qual. Que coisa inédita. Uma carta! Ninguém mais recebe cartas. Ninguem mais envia cartas. O email, o Twiter, o Facebook…

As pequenas não entenderam nada. Minha mulher já está acostumada com minhas esquisitices. Deve me achar piegas, antiquado ou muito romântico. Que é piegas para os tempos de hoje. Meu cunhado de doze anos deve ter me achado o mais velho entre os velhos que ele conhece. Marleide, a babá pontuou com um singelo agradecimento. E Tia Pepêta também deve ter me achado mais velho que as trinta e três primaveras que carrego.

Pois bem. Voltemos à carta de meu amigo nascido em 1931 antes que isso fique mais comprido do que já está.

Eis que nela, o velhinho me pedia ou exigia que eu me definisse sobre a Educação Sexual. Sou contra ou a favor? Bem. Vou ser o mais taxativo possível: – Sou contra. E, para evitar qualquer dúvida, ou sofisma, direi com a maior ênfase: – “Absolutamente contra.” Não sei se me entendem. A Educação Sexual devia ser dada por um veterinário a bezerros, cabritos, bodes, preás, vira-latas e gatos vadios. No ser humano, sexo é amor. Portanto, os meninos, as meninas deviam ser preparados, educados para o amor. Se meu leitor progressista ainda não está satisfeito, direi algo mais. O homem é triste por que, um dia, separou o Sexo do Amor. Nada mais vil do que o desejo sem amor. A partir do momento da separação, começou um processo de aviltamento que ainda não chegou ao fim. E, assim, o homem tornou-se um impotente do sentimento e, portanto, o anti-homem, a antipessoa.

E dessa forma, respondi em outra carta, meu amigo octogenário. À altura do velho que sou. Ou por outra, do novo de alma velha que sou.

 


Luiz Gustavo Oliveira


Minhas viagens pelo Nordeste e a influência medieval no Sertão


É uma nação
Dentro de um grande país
Um grande povo
Dentro de outro maior
E esse nó
Não desata nem destina
Que essa nação nordestina
O Brasil é o melhor

(Zé Ramalho em Intróito à Nação)


Vez por outra, me embrenho pelas quebradas do Sertão Nordestino numa viagem de pesquisa, descobrimento e encantamento. Uma experiência solitária e muito pessoal, embora esteja sempre bem acompanhado. Sou nordestino e embora tenha nascido numa capital já desenvolvida, me considero sertanejo. Minha alma é sertaneja e tudo que está ligado a esse universo me atrai.

Nessas andanças, procuro conhecer e absorver a essência, os costumes, o modo de viver dessa gente tão sofrida mas tão valente e sábia, que luta dia-a-dia pela sobrevivência em meio a tantas adversidades. Vou registrando tudo. As estórias do cangaço, as relíquias da saga musical do Nordeste: o xote, o xaxado, o baião, o aboio, a toada e aquele algo mais, remotamente ancestral, cujas origens, admitem os estudiosos, emanam do Portugal medievo.

Com minha maquina fotográfica vou colhendo instantes de beleza e registrando a alegria dessa gente que “ri quando deve chorar”. Sim, há muita alegria nessa gente e já tendo andando nesse País de Norte a Sul e Leste a Oeste, não conheço um povo alegre e espirituoso como há no Sertão do Nordeste. Ora foi daqui que saiu o maior humorista (Chico Anysio) e o mais autêntico e genial compositor e intérprete da musica popular do mundo (Luiz Gonzaga), inigualável em sua força telúrica e riqueza temática. Isso, para ficarmos em apenas dois exemplos.

Se vejo um grupo de vaqueiros tocando a boaida pela estrada, paro, desço, peço licença e puxo conversa. E quando dá, até as gravo. Encontro ali, vasto acervo cultural – não por veleidades livrescas (pois são homens de poucas letras), mas pela sabedoria de sentir e ver sem metafísicas ou assomos filosóficos. Ao me despedir, nunca deixo de pedir um aboio. O aboio é um canto sem palavras, entoado pelos vaqueiros quando conduzem o gado para os currais ou no trabalho de guiar a boiada para a pastagem. É um canto ou toada um tanto dolente, uma melodia lenta, bem adaptada ao andar vagaroso dos animais, finalizado sempre por uma frase de incitamento à boiada: ei boi! boi surubim!, ei lá, boizinho! O aboio é uma identidade do vaqueiro. Pelo aboio, de longe, já se sabe quem vem pelas ingazeiras. Minhas lágrimas sempre caem.

Video com um aboio de Zé Cambaio:

 

Vaqueiro do Sertão na lida com o gado

Nessas viagens tento entender o sentimento do retirante. Aquele que vencido por tanto sofrimento em ver sua terra seca, seus filhos passando fome e seu gado morrer de sede decide abandonar seu rincão e partir pro Sul em busca de uma vida ou morte melhor. Morte e Vida Severina!

Alguém já disse que o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas. Pode ser. Nada porém magoa tanto a alma como o tempo que se esvai na distancia da terra mãe. Faz brotar no íntimo, no mais recôndito sentimento da consciência, uma dor que se encanta de poesia ou música – ou em ambas – quando o coração é sensível a estas artes.

“A região que pode ser denominada de Sertão nordestino” – afirma o jornalista Selênio Homem, em trabalho publicado no Diário de Pernambuco, nos anos 70 – “equivale aproximadamente à área onde pesquisadores da história econômica dessa Região localizaram o Ciclo do Gado ou a Civilização do Couro. Subindo pelas margens do rio São Francisco, as boiadas ocupavam o interior do Nordeste até o Piauí. Durante três séculos, a Região ficou isolada e conservou os valores culturais que seus povoadores possuíam originalmente. Valores da Europa medieval. Enquanto o litoral acompanhava de perto a evolução do Velho Mundo, o Sertão, por falta de contato, conservava a herança cultural dos antigos colonizadores”.

 

“O meu boi morreu
O que será de mim
Mande buscar outro, oh Morena
Lá no Piauí”
(Autor desconhecido)

Me perdoem os bahianos e maranhenses, mas meu sentimento de Nordeste enquanto Nação começa do lado de cá do São Francisco e termina nas margens orientais do Parnaíba.

Luiz Gustavo Oliveira

“A luta pela posse das pastagens, pela definição de limites” – garante o jornalista – “configura o primeiro dos elementos medievais aculturados nas caatingas do Nordeste. O domínio da gleba pela violência exigiu a liderança ousada – temerária até – e elegeu a coragem pessoal como a qualidade básica do homem”.

“Os confrontos armados contra o aguerrido gentio do local” – prossegue Selênio – “ainda exalçou mais o heroísmo como atributo diferenciador. Ambos o fatos concorreram para determinar o escopo econômico (posse da terra), o tipo de chefia a ser exercida, a necessidade de manutenção de força militar privada e a criação de unidades autossuficientes e auto protetoras. Surgiram assim o latifúndio, o coronel e o jagunço, réplica das condições do Portugal medieval: o feudo, o senhor feudal e o cavaleiro”.

“Com estes requisitos fundamentais” – segue ele – “nada faltava para o surgimento do fanatismo religioso e do poeta ambulante. Vieram, pois, as figuras do beato e do cantador. Apenas o cangaceiro é que foi a autentica aculturação – um misto de templário `Jacques`e Robin Hood. Um pouco mais que um assaltante das vias comerciais da Idade Média, um pouco menos que um frade guerreiro. Não lhe faltava, porém, uns longes de cruzado ou de soldado de fortuna”.

 

Lampião, o rei do Cançago e Maria Bonita


“Na arte – diz Selênio Homem – “é onde ficou mais pura a influência medieval no Nordeste. A música dos sertões nordestinos, na sua expressão mais genuína – é cantochão sem tirar nem pôr, e o folheto, a gesta ou o rimance. Como os trovadores dos feudos, costumavam os cantadores da Região irem e virem, levando notícias do mundo e cantando em versos, acompanhados à viola, os feitos heroicos ou histórias maravilhosas, nas quais não faltavam as proezas dos Pares da França e da Távola Redonda. Como os menestréis medievos, eram (e ainda talvez o sejam) bem recebidos nas casas senhoriais, muitas delas vazadas (com cesteiras para rifles), em função dos cercos e assédios, idênticas aos castelos da Idade Média”.

O improviso na poesia cantada e musicada do Nordeste tem suas raízes no desafio português ou nas bulerias hispânicas, ambos de origem medieval e que ainda hoje persistem com todos os temperos de procedência.

 

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião cantou a identidade e a alma do povo nordestino

Numa reportagem sobre a Missa do Vaqueiro, também na década de 1970, Selênio persiste em sua tese da influência do medievo na cultura popular nordestina, quando expressa:

“São 700 vaqueiros, a maioria usando gibão ou a véstia de couro vermelho. Ao redor, uma multidão de aproximadamente seis mil pessoas. Manezinho de Caruaru abriu a cerimônia com o cantochão do aboio. Parecia uma mesnada medieval que ouvisse a missa antes do encontro. Padre Câncio, também vestido de couro, como uma capelão templário, lê a Segunda Carta de Paulo ao Coríntios. Luiz Gonzaga canta a música – a canção de gesta que fez para Raimundo Jacó, morto naquele local em circunstâncias misteriosas. Um jovem, de chapéu de couro na mão, chora. Ele é Vicente, filho único do vaqueiro assassinado em memória de quem a missa é rezada.

 

Com minha família em Juazeiro do Norte – CE (Julho/2012) visitando a estátua do Padim Ciço de quem sou devoto.

Em Ouricuri – Pernambuco, parei pra rever o amigo Mestre Aprigio e fazer-lhe nova encomenda. Mestre Aprigio de Ouricuri é o maior artesão de couro do Nordeste e ficou famoso por confeccionar os chapéus de couro e gibões de Seu Luiz Gonzaga e de todos os demais artistas que seguem sua trajetória. Disse-me que desde que apareceu no ultimo Globo Repórter em homenagem ao Rei do Baião tá trabalhando feito a peste e recebendo encomenda de todo o Brasil. Mas que a minha vai passar na frente de tudim.


De influencia medieval de nossos ancestrais colonizadores lusos, de certo brotaram a toada e a balada sertanejas, ainda hoje presentes nos benditos, nas “gemedeiras” e nas cantigas de cego das brenhas nordestinas, sempre mais pungentes no sentimento amargo dos retirantes, dos que migram para o Sul quando a seca feroz queima a lavoura e bebe a água dos açudes; ou no canto desesperado dos romeiros que buscam no Padim Ciço um lenitivo para suas desgraças. “Légua Tirana, “Triste Partida”, “Asa Branca” e “Último Pau-de-Arara” são pérolas inspiradas nesses transes da caatinga ingrata.

E assim, sigo nessa viagem sem fim, buscando alcançar o inalcançável, o sopro de identidade da alma sertaneja, a verve poética, o linguajar próprio, a força, a esperança e a beleza que só o povo do Sertão tem.

 

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.”
(Euclides da Cunha em Os Sertões)

Luiz Gustavo Oliveira



"Desconfio de pessoas que se dizem do bem"


Já afirmei algumas vezes que a minha vida é um grande apanhado de várias dúvidas e poucas certezas. Mesmo as minhas certezas mais incontestáveis são postas ao chão a todo instante. Isso advém de um espírito crítico ativo e inquieto. Por isso interesso-me tanto por filosofia.

De Platão a Nietzsche, de Sócrates a Focault, passando pelos brasileiros Cortella e Pondé, tudo, ou quase tudo me atrai quando o assunto é o pensamento filosófico. Especialmente, os filósofos que provocam. Aliás, filosofar é provocar o pensamento.

Recentemente, pude conhecer em carne e osso mais um grande filósofo. Um raro prazer! Luiz Felipe Pondé, “o comedor de criancinhas”.

Daniel Brito, Luiz Felipe Pondé e eu no Sorriso do Bem 2012

 

Suas provocações filosóficas em uma palestra que assisti (“Desconfio de pessoas que se dizem do bem”) aguçaram mais ainda meu espírito critico.

O exercício do espírito crítico é considerado atualmente, e com razão, condição fundamental em uma sociedade democrática e até fator de desenvolvimento.

Sem esse atributo, como escolher racionalmente uma boa solução para si próprio e para a coletividade, como discernir as vantagens e as desvantagens de uma hipótese, de uma proposição? Da economia à arte, da psicologia à moda, exercitar o espírito crítico é saber orientar-se na vida.

Mas o espírito crítico será a panaceia para todas as nossas dificuldades? Em primeiro lugar, uma condição não deve ser esquecida: não pode haver espírito crítico sem educação e formação satisfatórias. Quem não sabe ler ou escrever, quem não tem acesso aos órgãos de informação, terá capacidade de discernimento quando jogados nas ruas de uma grande metrópole? Para as populações carentes, que lutam por uma sobrevida imediata, o espírito crítico não tem, praticamente, nenhum significado; é um luxo que só pode ser usufruido em melhores condições, quando, eventualmente, se é beneficiado por certa autonomia intelectual e cultural.

Com base nesse esclarecimento, pode-se também compreender que a noção de espírito crítico não existia na imensa maioria das sociedades antigas e tradicionais em que a autoridade era exercida por um chefe, um patriarca ou um padre. Nessas sociedades, formadas por clãs, cada um desempenhava seu papel ou seu ritual. Quanto ao conhecimento, só merece destaque aquele que pertence ao grupo (ou aos seus deuses). No máximo, podem-se admitir deliberações entre os antigos, talvez um debate sobre problemas que merecem muita atenção. Mas a cultura do “espírito crítico”, em geral, ecoaria como uma incoerência; ela simplesmente não seria compreendida; não faria sentido algum.

Essas constatações não devem nos incutir um complexo de superioridade, permitindo-nos acreditar que somos intrinsecamente superiores a esses povos, a essas civilizações. Elas devem, sobretudo, nos incitar a compreender melhor as características próprias de nossa civilização.

No passado, muitos filósofos caíram em sérios apuros ao contrariar as autoridades com seus argumentos contrários à ordem estabelecida. Mesmo atualmente, o excesso de espírito crítico é sempre perigoso. Quem fizer uma crítica negativa, apenas para discordar ou destruir, será considerado “niilista”, aquele que não crê em nada e destrói por princípio.

Como fazer bom uso desse espírito crítico, que deveria ser considerado uma qualidade e praticado como tal? Não transformando os meios em fim.

O bom senso confirma: criticar por criticar não leva a nada. Não havendo razão para a crítica, continue refletindo filosoficamente, graças a esse espírito e muito além dele.

O espírito crítico é condição necessária, mas não é um fator determinante da filosofia. Com um pouco mais de filosofia desenvolve-se também o sentido e o conteúdo do espírito crítico.

Àqueles que ainda não se aventuraram na filosofia, dou um conselho: não tenham medo dela. Aventurem-se na filosofia!

Não existem rituais de passagem, não há senha nem fórmula mágica para que tornemo-nos um filósofo. Nem tatuagem, nem batismo. Nem histeria coletiva, nem invocação a Deus ou a espíritos. Nem frases carismáticas, nem gritos ou cantos.
Filosofem. Não contentem-se em conhecer apenas uma das facetas da vida, correndo o risco de mergulhar na depressão quando descobrirem as duras realidades de nossa existência.

Não permitam que o espírito crítico, o silêncio lhes permaneçam estranhos. Não lhes neguem a satisfação da curiosidade e da responsabilidade.

Luiz Gustavo Oliveira



Exploração de gás de xisto: um crime contra a sáude pública

Como acontece nos países pobres africanos (que já não aceitam mais nem indústrias de celulose, por exemplo), os Estados mais pobres da federação, como Piauí e Maranhão, ficam com a pior parte do progresso: as usinas altamente poluentes de produção de energia.

É um absurdo que não se discuta com a sociedade a instalação das usinas de extração de gás de xisto na bacia sedimentar do Rio Parnaíba. Tudo está sendo feito a toque de caixa, sem a mínima discussão do impacto ambiental dessa exploração. Pouca coisa sai na mídia, e quando sai é vendida a falsa informação de que isso representa um avanço para os Estados que receberão estas usinas.

Somos pobres e não estamos acostumados com dinheiro, e acho que porque somos pobres, nosso governador, nossos senadores e deputados – que deveriam nos proteger de certas ameaças -, se comportam como prostitutas de luxo a serviço das grandes empresas do setor de gás e petróleo. Só falam nos bilhões que serão depositados na economia local e não discutem o que realmente importa,  a saúde e o bem estar real de milhões de pessoas que vivem nessa regiões.

O que adianta ter dinheiro se não há saúde? O pior é ver também que a sociedade não está preparada pra esse debate, desconhecendo o tema e suas graves implicações. E dessa ignorância e alienação total, as raposas do poder se aproveitam para praticar o lobby dos grandes empresários do setor.

A exploração de gás de xisto por fraturamento hidráulico do solo tem sido apontado como a grande causa da contaminação do solo, do ar e dos leitos naturais nos EUA com substâncias benzoativas cancerígenas, metais pesados e outros, provocando inúmeras mortes por câncer e envenenamento nas comunidades próximas. Sem contar as cidades fantasmas que vem surgindo por conta da total impossibilidade de se respirar o ar ou consumir água, mesmo estando a milhares de quilômetros das áreas de exploração.

Para quem deseja conhecer a realidade, sugiro que assistam o documentário “Terra do Gás”.  É estarrecedor o impacto da atividade exploratória do xisto por fraturamento hidráulico e, mais ainda, a omissão das autoridades para os problemas causados por ela.
Preparem-se pois é isso que teremos no Piauí e no Maranhão em alguns anos.

É uma questão realmente muito séria para simplesmente não fazermos nada.

 

Luiz Gustavo Oliveira

Norte Nordeste do Bem


Existem muitas máximas sobre ajudar aqueles com mais necessidades (“fazer o bem sem olhar a quem” ou “é dando que se recebe”), mas a imensa maioria das pessoas desconhece a grandiosidade que existe por trás do empreendedorismo social. Necessidade é um termo muito amplo, diferentes tipos de pessoas têm diferentes tipos de necessidade. A alguns basta um aperto de mão ou uma palavra de carinho, outros um prato de comida e um local para dormir. O fato é que todos podemos contribuir, de alguma maneira, à nossa maneira, para levarmos saúde, alegria e bem-estar a muitos adultos e crianças.

O I Norte e Nordeste do Bem – Fórum de Empreendedorismo Social, que aconteceu em 25 de maio, foi idealizado para promoção e divulgação de ações sociais que deram certo e, assim, alimentar nas pessoas esse sentimento e a certeza de que cada um de nós sempre tem algo a oferecer.

O evento foi iniciado com a palestra “Para fazer o bem, é preciso ser do bem”, do professor, consultor em marketing de serviços, especialista em marketing internacional, Daniel Brito. O tema foi abordado com bastante clareza, enfatizando que para se fazer o bem, realizar ações sociais, o indivíduo precisa estar em dia consigo mesmo. Por outro lado, é necessário divulgar os trabalhos sociais – não em benefício próprio, mas como forma de atrair mais participantes e auxiliar mais pessoas, como faz a TdB.

Houve também fóruns, que objetivaram mostrar ao público pessoas que tiveram coragem e estímulo para começar, apresentando projetos de vertentes variadas, mas com o intuito de ajudar a quem precisa. Tudo isso destacando que, com bom desenvolvimento do trabalho e esforço, é possível obter-se resultados positivos.

Destaque para a presença de Raquel Barros, psicóloga, fundadora da ONG “Lua Nova”, que acolhe jovens mães em situação de risco e trabalha para inseri-las de maneira segura na sociedade; Carlos Simão, que trabalha pelo crescimento da ONG “Sertão Vivo” a qual envolve comunidades da região do semiárido na construção artesanal/manual de poços tubulares rasos às margens de rios e riachos temporários, através das associações locais (o Instituto chega ao pequeno produtor rural afligido pela crônica falta de água para discutir, planejar e desenvolver um novo método de extrair água para sua subsistência); e alguns dentistas colaboradores da TdB, premiados pela OSCIP como melhores dentistas do mundo.

Tivemos ainda a palestra da atriz, psicóloga e escritora Maria Paula, baseada em seu livro “Liberdade Crônica”. Nela, de maneira bem humorada, foram discutidos a vida em sociedade e os valores morais de um mundo povoado de modernidades e hipocrisia.

Quem teve a oportunidade de estar presente ao Fórum, pode observar e absorver belíssimos ensinamentos de pessoas comuns que tiveram coragem, que enxergaram além de suas próprias paredes, de seu próprio mundo, e viram os próximos (às vezes não tão próximos) que precisavam de ajuda.

Grandioso será o dia em que pessoas comuns não precisem tomar para si, sozinhas, tantos problemas. Mas enquanto esse dia não chega, trabalhemos e demo-nos a oportunidade de comprovar que fazendo o bem ao próximo, bem maior estaremos fazendo a nós mesmos.

Luiz Gustavo Oliveira



Sonhos 

Por Manoel Araujo - Beneficiario do Projeto Dentista do Bem de São Paulo


Todos temos um sonho – ou mais de um. Algo que nos motiva a conquistar algo, ou apenas um desejo muito grande… e passamos a imaginar como seria ou será.

Como sou meio “louquinho”, sempre tive milhares de sonhos. Alguns mais fortes que outros. Alguns passageiros e outros que ficam até serem realizados.

Um deles era voar de avião. Para muitos uma coisa fácil, para outros, um pouco mais complicado.

No mês passado, fui de avião para Teresina – PI. Realizei um sonho que tinha desde novo. E foi muitoooooooo melhor do que eu imaginava. Uma sensação muito gostosa… dá um frio na barriga, o corpo fica mais pesado em algumas horas. Sem explicação, é ótimooooo.

Teve uma hora que começou uma turbulência e eu não sabia que aquilo era turbulência e disse, “Nossa que muito louco Finos, parece Playcenter”. E ele como a Dra. Nícia e Bason disseram, “Voce é doido, isso é uma turbulência”. Pra mim era tudo diversão e alegria rsrsrs.

E não foi só isso, chegando em Teresina, o Dr.Luiz Gustavo, que junto com a TdB foi protagonista deste sonho, me levou para passear de Ultra leve.

Nossa… foi muito mais emocionante e gostosoooo. Senti uma sensação de liberdade… aquele cenário lindo visto de cima, onde tudo fica tão pequeno e nada parece ter fim… as nuvens tão lindas, que deu vontade de pegá-las. Foi como se meu mundo tivesse parado, e por instantes, eu estivesse livre, feliz, com a missão cumprida.

Sonhos são sempre possíveis, basta você acreditar, lutar e nunca desistir. Mesmo que pareça algo inalcançável, mesmo que pareça tão difcil, não desista, não perca o brilho do seu sonho. Use cada obstáculo como um desafio que você irá superar, pois quando superado e o sonho for conquistado, nada no mundo irá tirar de você o prazer da conquista.

Só tenho a agradecer à TdB, e ao Dr.Luiz Gustavo. Muito obrigadoooooooooooooo

Manoel Araujo
Beneficiário do projeto DENTISTA DO BEM de São Paulo/SP

Cenouras russas, Piauí, xadrez e outras histórias numa só

Tempos atrás, fui viajar. Andei por Londres, Paris, Roma. Estive na Praça de São Marcos. E lá, virei-me para não sei quem e perguntei: – “E os pombos? Onde estão os pombos?” Apontaram: – “Olha ali.” Protestei: – “Não são pombos, são turistas americanos.” Só então soube que os turistas americanos estavam ali, substituindo os pombos. Que fiz? Atirei o milho que trazia nos bolsos. Foi lindo ver o açodamento com que os turistas americanos bicavam o milho pelo chão.

Mas eu já conhecia tudo aquilo de cor. Já no tédio do turismo convencional, tive uma luminosíssima ideia: – “Vou a Moscou.” Três ou quatro dias depois, estava na fila do túmulo de Lênin. Entre parênteses, Lênin morreu quando devia morrer. Nem um minuto antes, nem um minuto depois, mas na hora certa. Vivesse mais quinze minutos e seria um outro Trotski. Mas já estou me desviando do assunto e passo adiante.

Onde é que eu estava mesmo? Já sei. Dizia que fui a Moscou. Com meia hora de Rússia, baixou-me uma inconsolável nostalgia do Brasil. Andei cochichando para um dos acompanhantes: – “Como isso é chato! Como isso é chato!” E assim que pude, voltei para o Brasil. Desembarquei no Petrônio Portela, e fui assaltado por amigos, conhecidos e parentes. Todos perguntaram: – “Que tal? Que tal?” Percebi o seguinte: – o sujeito que vai à Rússia, e pelo fato de ter ido, adquire uma dimensão especialíssima. Fiz então suspense, fiz mistério. Só falei no apartamento de mármore do Kadashevskaya Hotel no qual me hospedara há poucos metros do Kremlin. Depois de um imaginário pigarro, improvisei esta síntese fulminante: – “Os russos já comem três cenouras por dia.” Os presentes se entreolharam, num deslumbrante horror: – “Três cenouras!”.

Quando acabei de falar, João Cláudio Moreno, que, num canto, ouvia tudo, abriu a boca: – “Hoje, o russo come três cenouras. No tempo do Czar, comia uma.” E, assim, segundo eu de um lado e o João do outro, o papel do socialismo foi acrescentar, ao prato do povo, mais duas cenouras.

Tanto eu como o João, tivemos que ir a Moscou para falar sobre cenouras. Muito melhor fez nosso amigo José Napoleão Filho. Nunca esteve na Rússia embora conheça todo o resto do mundo. Pois bem. E, um dia num desses casamentos da alta sociedade tupiniquim mafrense no qual ele refestela-se quase todos os fins de semana, um decote pediu-lhe uma frase sobre o mundo soviético. O meu amigo não respondeu imediatamente. Fez um suspense e, por fim, disse: – “A Rússia é o Piauí com rampa de mísseis.” Vocês entendem? Ninguém precisa ir à Rússia. Basta ler a frase da Rússia. Os sujeitos que vão lá não percebem que aquilo não passa de um Piauí, naturalmente ampliado (tamanho “família”), com a rampa de mísseis.

Aliás, a frase do Napoleão só tem um defeito: – é injusta com o Piauí. O seu autor admite uma certa semelhança do nosso brioso Estado com a União Soviética. Tanto que seria igual á Rússia se também tivesse os “mísseis”. Acontece que o Piauí nunca estuprou a integridade do piauiense, nunca o transformou na antipessoa. Aqui, a pessoa humana é a pessoa humana. Ao passo que a Rússia desumanizou o russo.

Se me perguntarem por que estou dizendo isso, explico: há alguns dias assisti a um documentário de produção brasileira sobre o período da Guerra Fria onde tudo era motivo para uma intensa disputa politica-armamentista entre Estados Unidos e União Soviética. De viagens ao espaço aos jogos olímpicos, tudo servia para a propaganda que procurava mostrar a superioridade de uma nação sobre a outra. Muito mais que isso, estavam em jogo dois regimes de governo que se opunham ideologicamente, o capitalismo e o socialismo. Até o campeonato mundial de xadrez serviu para alimentar a rivalidade entre americanos e russos. De tão interessante, me aprofundei no tema. Vejam o que descobri.

Em 1972, disputaram o título deste campeonato o soviético Boris Spassky, campeão do mundo, e o americano Bobby Fischer, o desafiante. Pela primeira vez, um jogo que o homem comum não entende, e considera chato, fascinou o mundo. No Brasil, em todas as esquinas e botecos, discutiu-se a sensacional competição.

Eu disse sensacional, e por que sensacional? Não éramos analfabetos em xadrez? Éramos. Não continuamos analfabetos? Continuamos. E, então, por que dois jogadores adquiriram uma súbita e espetacular popularidade? Por que a partida de xadrez, mais que uma partida de xadrez, era o confronto de duas realidades. Não sei se me compreendem. Eis o que eu quero dizer: – o comportamento dos contendores exprimia aquelas realidades.

De um lado o burocrata soviético; de outro, o americano, vivendo a sua liberdade, até as últimas consequências. Resumindo: – socialismo e democracia. Vejam bem: – não o cotejo de socialismo e capitalismo, mas socialismo e democracia. Bobby Fischer fez o que quis e como quis. Inventou um comportamento que não foi jamais de jogador de xadrez e, muito menos, em plena decisão de um campeonato mundial. Fischer agia e reagia como se aquilo fosse uma reles pelada. No primeiro dia, perdeu a partida por que não compareceu, simplesmente não compareceu. Meteu-se com uma pequena, foi ao cinema com a pequena e, quando se lembrou, tinha passado da hora. Vira-se para a garota, às gargalhadas: – “Imagine, perdi a hora!” A pequena riu também e emendaram o cinema com um jantar.

Compareceu à segunda partida, embora atrasado, e ainda atrasado, e ainda de ressaca. Ao chegar (e apesar da ressaca), riu da cara do adversário. Eu falei em duas realidades, de uma brutal dessemelhança. Acontece que a realidade soviética até hoje não ri, não acha graça, não faz piada. Bóris Spassky usou, para todas as partidas, a mesma cara sinistra. Fischer deu-se ao luxo de perder o primeiro jogo.

Não só Spassky era sinistro como também seus assessores. O que o americano andou fazendo não é normal. Houve dias, em que só faltou virar cambalhotas plásticas, elásticas, ornamentais. E começou o massacre do russo. No pavor de qualquer originalidade, nem Spassky, nem seus assessores queriam nada com a imaginação. De vez em quando, o americano parava: – “Vou-me embora.” Todos se arremessavam: – “Embora por quê?” Um dia, ele reclamava contra o barulho. No dia seguinte, contra o silêncio. Nada descreve o que a TV sofreu na sua mão.

Os lances do americano eram cada vez mais livres. E, pouco a pouco, o nosso Bóris e seus assessores iam sendo dominados psicologicamente pelo inimigo. Na Rússia, já se dizia que Fischer hipnotizava Spassky. A superioridade do americano sempre foi humilhante. Eu disse que a esposa do soviético veio correndo injetar-lhe um pouco de otimismo? Veio. Mas tudo inútil. O inevitável aconteceu. Spassky só teve uma solução: – correr fisicamente da luta. Sumiu. O juiz esperou mais do que devia. E, finalmente, declarou Bobby Fischer o novo campeão do mundo.

Os jornais russos até hoje estão xingando Fischer de débil mental. Mas Spassky também não ficou impune. No dia seguinte à derrota, o Kremlin passou a considerá-lo um renegado.

Não há, porém nenhum mistério na derrota cômica. Venceu o homem livre, por ser livre, e perdeu o escravo, por ser escravo. É possível que Spassky esteja correndo e continue correndo até a consumação dos séculos.

 




O homem não teria alcançado o possível, se inúmeras vezes não tivesse tentado o impossível.

- Max Weber